Por ocasião do acontecimento que levou a ministra Marina Silva, do Meio-Ambiente, a passar a ser ex-, parece que todos os jornalistas encontraram aí uma fonte da qual entupir as bexigas, ao menos pelos próximos três dias, e começaram a pipocar nos sites e jornais os artigos sobre diversos aspectos de sua carreira profissional e de sua vida pessoal, como é comum nos assuntos desse porte (apesar de terem pouca relevância).
Um desses, um infográfico, me chamou a atenção pelo título: “A gestão de Marina em 9 polêmicas”. Comecei e parei na segunda, “Marina entra em confronto com Zeca do PT”. Não por falta de curiosidade, pelo contrário. É que encontrei a seguinte passagem, ao final do texto: “A ministra lamentou também a morte do ambientalista Francisco Anselmo de Barros, que ateou fogo ao próprio corpo em protesto à ação do governo estadual”. Esta ação consistia num projeto de lei que permitiria a construção de usinas hidrelétricas na região do Pantanal.
Não dava pra continuar. Pelo menos, não sem saber quem foi esse tal de Francisco Anselmo de Barros. Aí está o que descobri: era um senhor de 65 anos na data de seu suicídio, jornalista, que advogava desde sempre pelas causas ambientais no país. E ainda que, durante um protesto contra a supracitada medida ambiental, enrolou-se em cobertores encharcados de gasolina e atirou um fósforo neles. Não por uma indevida inspiração divina ou por um acesso de fúria do momento, como se poderia supor, afinal nós, seres dotados de razão, somos capazes de fazer coisas estúpidas quando um jorro de emoção inesperado sobe à cabeça. Não. Foi premeditado, como se descobriu em cartas que ele havia escrito na véspera, justificando seu ato como necessário ao bem comum.
Então, quase que imediatamente, me veio a seguinte questão: Como ele pôde?
Em primeiro lugar, é difícil conceber como é que nenhum impulso natural contra o calor e as queimaduras das chamas não teve seu lugar aí. Mas talvez isso seja analisar a questão na superfíe, porque mesmo que ele quisesse se livrar do fogo, seu corpo já estaria coberto por inflamáveis. Qualquer que tenha sido o caso, não importa. Foi premeditado.
E isso só pode significar o seguinte: o impulso por martírio era tão grande nesse indivíduo que a idéia de se ver morrendo por uma causa pública significou para ele uma glória pessoal e mais nada. Talvez aí se nota uma influência do papel da Igreja cristã na nossa sociedade? Não sei. O que sei é que foi uma atitude estúpida. Porque se o bem público tivesse, de fato, mais força do que a glória particular para ele, não acharia sensato fazer algo que chama a atenção do pública muito menos pelo seu motivo e muito mais por sua violência. Com isso, ele acabou justamente por fazer o contrário daquilo que pretendia, ou seja, desviou os olhos do povo para sua auto-mutilação ao invés da causa ambiental.
E será que ele desprezava tanto seus esforços nos mais de 30 anos que advogou pelo meio-ambiente a ponto de se acreditar incapaz de fazer qualquer outra coisa mais a esse favor, pelo resto de sua vida? E mais, tinha ele tão pequeno apreço por sua vida pessoal, a ponto de acabar com ela dessa maneira infame? Porque por mais que alguns julguem que o público é mais nobre que o particular, não temos como negar completamente esta realidade, em detrimento daquela.
Ou talvez ele não tenha considerado essas questões.
Uma pergunta, então, para finalizar: Qual é a diferença real entre martírio e suicídio?
10 Comentários
Maio 15, 2008 às 2:37 am
Um colega meu comentou certa vez que á tinha assistido a alguns vídeos de pessoas que ateavam fogo no próprio corpo, e em todos eles, as pessoas aparentavam tranquilidade. Ficavam imóveis, ou caminhavam lentamente, até cairem sem forças, derrotados pelas chamas. Ao contrário, pessoas que pegam fogo por acidente saem correndo desesperadas. Isso me lembrou a tranquilidade daquele personagem do “Waking Life” que se auto-imola em determinada parte do filme. Segundo esse meu colega, ele acredita que é porque essas pessoas estão em um estado de desespero tão acentuado que o fogo não lhes mete mais medo. Elas passaram por tudo e estão dispostas a suportar a dor das chamas por algum motivo especial.
Parece ser o caso dessa pessoa que você descreve.
Então não sei se ele estaria realmente em condinções de considerar tantas observações. Mas concordo com você, o ato dele acabou desviando a atenção da causa pelo qual ele lutava. E essa causa ainda perdeu um importante “guerreiro”.
Maio 15, 2008 às 3:09 am
pois é, ele podia ter aprendido a lição com o bispo cappio! além de todos os motivos que você citou, atear fogo a si mesmo não funciona porque tem um efeito efêmero (embora impactante), enquanto greve de fome perdura diiiiiias, e obriga os observadores a pensar na causa daquilo.
Maio 15, 2008 às 3:15 am
rafa: sifudê, não acredito nessa tranqüilidade. isso só acontece em waking life! (eu também lembrei do filme quando li a notícia)
sério, a dor deve ser insana. nãoqueropensar, não queropensar.
Maio 15, 2008 às 2:33 pm
“E será que ele desprezava tanto seus esforços nos mais de 30 anos que advogou pelo meio-ambiente a ponto de se acreditar incapaz de fazer qualquer outra coisa mais a esse favor, pelo resto de sua vida?” Acho que ele não desprezava os esforços, mas cansou de tanta demora/burocracia/whatever e tomou essa decisão mais drástica. Os interesses são tão grandes que eu não sei como tem gente ainda que consegue ter forças pra defender o meio ambiente.
Maio 15, 2008 às 2:41 pm
Encostar a mão na chapa do fogão por acidente ou por vontade de sentir uma queimadura não alivia em nada a dor. Razões a parte; o sofrimento é o mesmo. Eu só posso pensar que tamanha era a crença dele na causa que ele anulou a própria vida, achando que isso ajudaria mais do que o trabalho de ambientalista. Por outro lado, eu tb acho incoerente esse ato, se afinal ele tava lutando pela vida/natureza.
Mas enfim, não sabemos se houve algum outro motivo que o levou a isso… talvez ele fosse um doente em estágio terminal de hanseníase e nesse caso o espertchinho quis matar(!) dois coelhos com um golpe só. Vai saber.
Maio 15, 2008 às 5:48 pm
Suicídios sempre me impressionam. Os mais chocantes para mim são justamente esses em que as pessoas planejam como vai ser, estão seguras de que a morte é o melhor caminho. Eu tenho um pavor absurdo da morte.
Concordo com o Tisf, provavelmente ele cansou de tanta burocracia e demora e agiu drasticamente, só que de fato chamou mais atenção para ele mesmo do que para a causa.
Não sei se alguém que batalhou durante 30 anos ia querer simplesmente ser um mártir. Ou devia achar que isso teria um valor para a luta pela defesa do meio ambiente.
Não foi bem isso o que aconteceu.
Maio 15, 2008 às 9:14 pm
“Os mais chocantes para mim são justamente esses em que as pessoas planejam como vai ser, estão seguras de que a morte é o melhor caminho. Eu tenho um pavor absurdo da morte.”
é que os suicídios são um fenômeno da razão, não da loucura.
(coisas que vc aprende lendo dapieve, hihi)
Maio 16, 2008 às 1:32 am
Ristolfo, a “tranquilidade” que eu falei é só aparente. O que eu quis dizer é que quem faz um treco desses está completamente seguro do que quer. Ou tão desesperado a ponto de não enxergar outra soulção. Pra ele essa É a solução, então que seja, vamos enfrentar.
Maio 17, 2008 às 2:27 am
Eu vejo isso da seguinte maneira:
Existem duas causas que levam as pessoas a se matar: algo que essas pessoas vêm como bem comum e cujo logro não poderia ser alcançado de outra maneira, e uma profunda tristeza individual. No primeiro caso, chama-se martírio, no segundo, suicídio, mas o primeiro nada mais é que um eufemismo do segundo.
Os “martíres” alcançam uma espécie de glória própria, vêm uma boniteza no ato de se matar, porque comumente é aceito que o público é mais nobre que o privado. Isso é uma espécie de egocentrismo, afinal, pelos motivos que eu expus no texto, o que sobressai é a vontade de se ter essa glória e não alguma ação efetiva na direção de solucionar a causa pública, o “motivo”.
Maio 17, 2008 às 9:09 pm
Caro Didier:
Parabéns, pela excelente iniciativa. Desejo vida longa e constante aprimoramento ao blog. No que concerne à excelente redação, certamente, você apresenta as melhores credenciais já em apenas algumas linhas.
Sobre a história desse idiota que você descreve, não há nem muito mais o que comentar. Por mais que a natureza humana, por meio da razão, nos eleve ao mais elevado posto entre os animais, a estupidez sempre esteve presente. Distintamente de algumas espécies, que após a cópula são assassinadas por seus iguais – p. ex. alguns aracnídeos -, somente o homem é capaz de cometer um ato tão ridículo. Além de colocar fim à própria vida, ainda o faz utilizando-se de um método absurdo.
Por mais que o histórico de um indivíduo seja admirável, a sua biografia torna-se repulsiva diante da forma como se encerra. Melhor seria morrer depois de um longo orgasmo, inspirado no exemplo dos aracnídeos.
Todavia, mesmo esses machos aracnídeos, quando ainda encontram energia, fogem das fêmeas após a cópula, ou, os mais “inteligentes”, fingem-se de mortos, para poderem copular com outras fêmeas.
Ok, Didier. Aguardo uma visita e, finalmente, algum comentário em meu blog. Já retribui o link!
Forte abraço.