Agosto 1, 2008...6:11 am

O Cavaleiro das Trevas

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O impacto maior desse filme em mim veio na forma de uma questão: O que é mais importante, a verdade ou o sentimento de justiça? Nolan aposta na segunda opção. A conclusão final da história é: enquanto os cidadãos de Gotham acharem que está tudo bem, que estão fazendo a coisa certa pelos meios certos, não tem problema, mesmo que não corresponda à verdade. Justifica isso por uma centelha de inspiração que esse sentimento pode despertar, inspiração para fazer o bem, para agir pelas formas moralmente corretas. O Batman não pode com isso. Pela própria maneira que escolheu agir, ele se depara com a impossibilidade de inspirar justiça propriamente dita nos outros. Ele tem um código moral próprio, diferente daquele que nós somos obrigados a aceitar, pelas leis civis. Sua única regra é não matar.

Pois é exatamente isso que quer o Coringa. Nas histórias em quadrinhos, o arqui-inimigo do Batman tem sua cara transfigurada por causa de um acidente químico do qual o próprio herói participou. Essa origem daria ocasião de pensar a vingança como a motivação principal do vilão. Mas no filme isso não aparece, ainda bem! O que o Coringa quer, primordialmente, é questionar a própria moral do Batman e dos cidadãos de Gotham. Quer dizer, para estes, espancar um criminoso, quebrar seus ossos, feri-lo, é algo considerado bom e justo, porque deixa a rua livre para o passeio noturno. Desde que a linha não seja ultrapassada; desde que não o matem. A morte de um outro é a corrupção maior, a queda daquilo que eles entendem por bem.

O plano mais geral do Coringa é revelar às pessoas o lado escuro de suas personalidades, que elas tentam a todo tempo empurrar para debaixo do tapete. Ele quer provar que todos nós queremos e ao mesmo não queremos jogar pelas regras. A representação mais clara (e óbvia) desse conflito vem com Harvey Duas-Caras. Ele é a consagração máxima do plano do palhaço, a completa realização da necessidade como determinante dos nossos valores e da nossa maneira de agir. “A única moralidade é o acaso”, diz Harvey. Mas o assunto não acaba aí: resta ainda a cena dos barcos.

No contexto do filme, ela seria a confirmação pública e em maior escala daquilo que o Coringa conseguiu provar com o Duas-Caras. Mas acontece que, no final das contas, nenhum dos barcos é explodido. Isso signfica que Harvey Dent é uma excessão, motivada por um trauma físico, psicológico, ou sei lá mais o quê; ele não representa a própria natureza do ser humano. De certa forma, essa conclusão nos leva de volta ao início deste breve texto: o que é mais importante, a verdade ou o sentimento de que tudo anda bem, obrigado? Ou poderíamos substituí-la por outra, tendo em vista nosso presente assunto: se fosse realidade, o que teria acontecido com os barcos? Porque sem dúvida, o Nolan arriscou o realismo do filme e a verdade ao filmar esta cena. Mas… isso importa?

3 Comentários

  • Como o Gordon mesmo disse: o Dent era o melhor dos três. Eu não o vejo como uma excessão, já que as pessoas no barco não estavam com uma espécie de pré-sentimento de raiva para de repente terem explodido uns aos outros. O Dent passou por uma série de provações, desde o pessoal tirando com a cara dele pelo apelido, desde a pressão toda de ser o promotor, a pessoa que ele gostava morrer, etc. Nos barcos, aquilo foi no momento. Imagina se o Coringa tivesse realmente dado o detonador da própria bomba? Eles iam explodir eles mesmos. Poderia ser até uma forma de castigá-los. Vai saber :p

  • Também não acho que o Dent, é a exceção, ele passou pelo choque de ter sobrevivido enquanto a mulher que ama não, teve o rosto desfigurado, foi pressionado em todos os sentidos. Dent talvez seja o mais humano dos personagens do filme.

    Mas sim, a cena das barcas é uma grande alegoria do conflito entre batman e o coringa e foi um desfecho magistral. Muito boa a cena com aquele prisioneiro.

  • Na lógica do Batman, o Harvey Dent é a exceção justamente porque passou por uma série de traumas para se tornar o Duas-Caras. O que ele quis mostrar é que as pessoas não são fundamentalmente más, ou não têm um lado ruim por essência, como o Coringa acredita, mas que elas são solidárias, gentis, etc, mesmo nas piores situações. É por isso que ele esfrega na cara do Coringa o fato de que os barcos não foram explodidos.


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