Eu acho extremamente curioso que os meios de comunicação (em especial os audiovisuais), que têm por uma de suas principais funções “fazer esquecer”, acabar com a memória coletiva, se ocupem, a esta altura do ano, dos mais variados tipos de retrospectivas (só na página inicial do UOL são pelo menos 3), encenando, assim, aquilo que por consenso deve ser classificado como “notável” ou “digno de ser lembrado (por um dia)”. De qualquer forma, eu não vim aqui escrever sobre os pressupostos a priori deste tipo de programa, nem criticá-los com base nisso. As restropectivas, em geral, são bem divertidas.
Mas, como não poderia deixar de ser, há o grande problema – como em qualquer lista – de que uma parcela de acontecimentos “notáveis” acabam ficando de fora, por motivos diversos. O top 5 a seguir provavelmente não figurará na maioria dessas listas, mas nem por isso deixa de ser importante lembrá-los.
RETROSPECTIVA 2008
5. Prisão dos pixadores da Bienal do vazio
Se eu fosse curador de uma exposição de arte e decidisse deixar um andar do prédio onde ela seria feita completamente vazio, sem obras, o mínimo que eu poderia esperar é algum tipo de intervenção naquele espaço. Quer dizer, aquele andar vazio procurava discutir, a meu ver, tanto o formato daquela exposição – a economia dos espaços, a disposição das obras – quanto o estado da cultura atual em sentido amplo – seria ela tão dispensável a ponto de não conseguir preencher um prédio inteiro como aquele? Prender os pixadores que decidiram botar a mão ali é acabar com todo e qualquer tipo de discussão, além de esgotar toda a potencialidade crítica daquele espaço em uma interpretação unívoca e determinada; é fechar um espaço que se pretende livre. A suposta “radicalidade” da intervenção é uma falácia e não justifica, em medida alguma, essa prisão e muito menos ainda quando ela se estende por 50 dias (o Pitta, o Dantas e o Maluf ficaram presos por quanto tempo mesmo?). É tão absurda a idéia de prenderem pessoas que querem pintar uma tela branca, “livre”, que faz perguntar se a arte já não sucumbiu na totalidade a uma sociedade altamente regulamentada e controlada. E o pior foi o que passou em seguida, com a enrolação pra soltar a menina presa por 50 dias, em que uma grande parte de pessoas envolvidas no caso ficaram jogando um jogo de “comigo não morreu!”, e passando a bola para quem quer que aparecesse na frente.
4. Sargento gay
Não é per se o fato de ele ter se assumido. Isso não quer dizer absolutamente nada. Mas o Brasil provou mais uma vez ser um país onde igualdade de direitos é uma ficção, ao contrário de todas as expectativas. Grande parte do que se fala do país aqui dentro e lá fora é para louvar a falta de preconceitos, a “diversidade multicores” dos brasileiros, principalmente em termos de etnia e sexualidade. Afinal, a maior parada gay do mundo fica aqui e sabe-se que nós a-do-ra-mos os estrangeiros. Estrangeiros? Leia-se europeus e norte-americanos. Vão falar de “igualdade” para os bolivianos do centro de São Paulo. E pluralidade sexual? Desde que fiquem bem longe. É a única conclusão que podemos tirar quando, para dizer que é gay, um cara precisa ganhar uma matéria de capa numa revista de grande circulação e ir a um programa de TV sensacionalista. Mesmo que se leve em conta as particularidades do caso, ou seja, o fato de ele fazer parte de uma organização como o exército (que aliás está de parabéns por re-encenar todos os clichés institucionais), o grande circo não se justifica, afinal não me parece incomum que o desejo de práticas homoeróticas possa surgir num ambiente extremamente saturado do estereótipo de gênero masculino. Igualdade branca.
3. Batman
Tá. Alguns diriam: “Aí, você forçou a barra”. Mas há uma explicação…
Não, eu não acho que o Batman 2 foi o melhor filme de 2008, mas ele certamente foi o filme do ano. São coisas diferentes. O fato em si de ter arrecado perto de US$1 bilhão ao redor do mundo diz pouco, afinal entre os 10 primeiros campeões de arrecadação de todos os tempos (Batman 2 é o quarto), 8 foram lançados entre 2001 e 2008 – os outros 2, em ‘97 e ‘99. Ou seja, estamos acostumados com isso e o público consome indistintamente o que está aí. Nada de novo. Mas passando os olhos mais uma vez por essa lista, fica clara a diferença em qualidade entre os concorrentes. Com a possível exceção dos dois Senhor dos Anéis, todo o resto pode ser incluído na lista de blockbusters de verão apreendidos superficialmente por uma audiência desinteressada. E podem falar que o conceito de qualidade é, em última medida, subjetivo e etc. Mas quando um filme agrada o grande público, a crítica e a “cinefilia amadora especializada”, como esse Batman, há algo aí que deve ser avaliado objetivamente. E na verdade, isso tem se tornado cada vez mais raro – pra não dizer quase impossível – nos últimos anos.
2. Sapatada no Bush
Tá, esse provavelmente vai constar na maioria das listas, mas também aqui não pode ficar de fora. 2008 fica marcado como o fim do governo Bush, com direito a sapatada na cara, que representa nada menos que o saldo final da política externa norte-americana nos últimos 8 anos. E eu não estou colocando a questão em termos de vitória-mudança de Obama, pois mesmo que o McCain tivesse ganhado, provavelemente não colocaria os mesmos sapatos (sacaram o trocadilho?). Mas este foi o ano em que o governo Bush ficou, de certa forma, desmoralizado tanto pelas eleições e pela distância que ambos os candidatos manifestamente tomaram dele, quanto pela nova crise econômica mundial, cuja culpa caiu em grande parte na insustentabilidade de sua política interna. Dupla falha, portanto, que só ele, aparentemente, custa a reconhecer, continuando a dizer coisas do tipo: “Espero pelo julgamento da história” etc. E o fabricante está faturando uma grana com réplicas do sapato…
1. Governo alemão corta financiamento aos filmes (filmes?) de Uwe Boll
A flor-de-lis no meio do estrume. Fabuloso. Realmente – eu nunca havia me perguntado como esse cara conseguia dinheiro para fazer o que quer que seja aquilo que ele faz. Enigma resolvido. E quer dizer que o governo alemão acha agora que os “filmes” dele não dão retorno, que ele perde mais dinheiro do que ganha, e que não vão mais bancar os projetos? Se isso fosse o suficiente para que ele deixasse de produzir, tanto melhor, mas nem um abaixo-assinado de 10.000 foi capaz. Mas para nós, brasileiros, isso talvez realmente signifique seu fim. Porque, preso no limbo entre as grandes produções (que ele não consegue bancar – nem fazer) e as produções independentes (que ele consegue bancar, mas continua sendo incapaz de fazer), nem os nossos multiplex nem os nossos cinemas alternativos se ocuparão daquilo que ele faz. E vocês não acham espetacular como Uwe Boll sempre acha que consegue resolver seus problemas através de lutas de boxe (será que ele desafiou a Angela Merkel?)?
1 Comentário
Janeiro 18, 2009 às 12:32 pm
[...] caiu em grande parte na insustentabilidade de sua política interna. … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]