Esta é a ilhota de Sark, parte da região administrativa de Guernsey (RU), situada no Canal da Mancha. Ela possui pouco mais de 600 habitantes, distribuídos numa área de aproximadamente 6 km², tem como idiomas oficiais o inglês e um dialeto local, o sercquiais, acabou de abolir o feudalismo, e suas principais… err, peraí. FEUDALISMO?
Sim. Sark foi o último território europeu a abolir o sistema feudal clássico, ou seja, a partir de 2008 a Europa pode ser declarada oficialmente livre da relação senhorio-vassalo, pelo menos formalmente.
Tudo começou quando dois magnatas-gêmeos ingleses, os irmãos Barclay, donos do Daily Telegraph e de um Ritz Hotal, decidiram comprar uma ilhazinha particular, Brecqhou, tão minúscula que poderia passar despercebida, onde instalaram sua casa, um castelo gótico no melhor estilo pós-moderno. O problema é que esse pedaço de terra ainda faz parte da jurisdição de Sark, ou seja, estava obrigado à proibição de qualquer veículo motorizado bem como à transmissão de propriedade apenas por hereditariedade e ao pagamento de um quinhão do negócio ao Senhor do feudo Jean Michael Beaumont, além de a outras leis proclamadas por Elizabeth I, em… err, meados do século XVI. Algo que deixaria qualquer proprietário do século XXI furioso.
Mas os Barclay foram espertos. Apelaram para a Convenção Européia dos Direitos Humanos, e a pequena ilhota britânica, parada no tempo, viu-se obrigada a dar um empurrãozinho para a modernização. Foram convocadas eleições gerais e após longa discussão que dividiu Sark entre os defensores do velho sistema e seus opositores, 474 votantes elegeram 28 (de 57 candidatos) representantes para escrever a nova constituição. Mas é justamente aqui que se dá a grande virada.
Apenas 5 entre os 28 eleitos apóiam formalmente a mudança de governo; a grande maioria é defensora ainda do antigo regime. Seja por causa da tradição, ou pelo sentimento de que os Barclay meteram o nariz onde não eram chamados, os sarkianos não queriam essa mudança. E isso tudo fica tanto mais confuso com as ameaças dos Barclay de se retirarem do lugar, junto com todos seus restaurantes e estalagens – cujo impacto na economia não seria de desprezar, já que quase 100 pessoas, ou 1/6 da população, ficariam desempregadas – e com as misteriosas publicações nos jornais locais de denúncias contra os defensores do feudalismo e elogios dos candidatos apoiados pelos bilionários.
O que sobra disso? Por um lado, uma população rural se utiliza de meios progressistas para garantir a manutenção de uma ordem arcaica. Por outro, os auto-denominados defensores da democracia se atém a métodos arcaicos de persuasão, para salvaguardar os próprios interesses. Total confusão de épocas, uns diriam.