Fevereiro 12, 2009...3:20 am

Zeitgeist e a energia

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Vocês já ouviram falar de energia geotermal?

geothermalpower1

Não? Eu explico.

Em poucas palavras, energia geotermal, ou geotérmica, é a energia extraída do calor liberado pelo magma terrestre, isto é, aquela substância localizada no interior da Terra que, eventualmente, pode ser expelida quando um vulcão entra em erupção.

Praticamente toda a superfície terrestre está situada em cima de placas tectônicas, que flutuam nesse magma. Isto significa que em qualquer lugar do mundo pode-se chegar a essa substância, se um poço com certa profundidade (a partir de mais ou menos 4 km adentro) for cavado (1).

O calor liberado pelo magma é transformado em energia através do aquecimento de fluidos secundários que, convertidos em vapor, têm força suficiente para movimentar os geradores. Este processo acontece em usinas relativamente pequenas se comparadas às nucleares ou carvoeiras e, além disso, não-poluentes, pois não requerem nenhum outro tipo de combustível além do empregado, claro está, em sua construção (2).

A primeira vez em que esse tipo de energia foi manipulada aconteceu em 1904 na Toscana e a primeira usina foi construída apenas sete anos depois no mesmo local (3). Muito antes, portanto, do salto tecnológico dos últimos 50 anos, que teve, no terreno das energias, um solo extremamente fértil para seus tão celebrados improvements, em todos os sentidos (capacidade e rapidez de geração, volume de armazenamento etc).

Agora, um pouco de dados.

O Massachussets Institute of Technology (MIT) divulgou, em 2006, um estudo sobre o potencial de extração de energia geotérmica, calculando o potencial bruto de todo o magma presente na Terra em aproximadamente 13.000 ZJ (zettajoules*).

Desse número, cerca de 2.000 ZJ (4) poderia ser extraído com investimentos de US$1 bilhão em pequenos improvements tecnológicos nos próximos 15 anos. Nada comparado à quantidade de capital movimentada anualmente pelos cartéis do petróleo.

O volume total de energia despendida no planeta atualmente é de 0,5 ZJ (5).

(…)

- Mas… isso não significa que nós temos a capacidade de gerar energia limpa e segura pelos próximos, er… 4.000 anos?

Sim (6).

Ah! E eu quase esqueci de mencionar que esse tipo de energia é renovável(7).

Ok. Vamos recapitular.

A energia geotérmica pode ser extraída em qualquer parte do planeta(1), sem poluir o meio-ambiente ou prejudicar o ecossistema (2), através de usinas econômicas e com a tecnologia presente (3). O recurso bruto desse tipo de energia é mais abundante que qualquer outra substância empregada atualmente (4) e sua extração, tendo em vista os padrões atuais de consumo de energia (5) – que, diga-se de passagem, não são baixos – pode garantir energia limpa por milênios a seguir (6), e de uma forma virtualmente inesgotável, já que esse recurso é renovável (7).

Parece mentira, né?

Dêem uma olhada no vídeo abaixo. Ele explica um pouco tudo isso.

A conclusão é que o eixo Obama-Lula, no que diz respeito a “novos” recursos energéticos, não é tão bonzinho como a gente pensava. A pergunta do porquê os governos continuarem injetando bilhões em pesquisa e tecnologia com o etanol e outros biocombustíveis, quando se tem disponível uma fonte de energia como a que expus acima, tem uma resposta muito mais óbvia do que poderia sugerir a simples ignorância desses fatos por parte dos governantes. É que não encontraram ainda um meio de fazer (muito) dinheiro com as fontes geotérmicas. Resta saber até quando.

*1 ZJ = 10²¹J

3 Comentários

  • Esse “não é tão bonzinho como a gente pensava” é bem relativo. Se você pensar que existem milhões de brasileiros que dependem direta e indiretamente da indústria sucroalcooleira e de biocombustíveis (que foi a responsável pela maior abertura de vagas de empregos formais ano passado), o país tem que se adequar da melhor forma possível em garantir renda pros seus habitantes. Por isso, se for viável economicamente as usinas, as coisas precisam ser feitas em transição. Além disso, olha a conclusão desse trabalho aqui: http://www.fem.unicamp.br/~em313/paginas/geoter/geoter.html
    Os custos não são tão baixos assim…

    • Você esqueceu de mencionar que esse trabalho da Unicamp tem mais de 10 anos de idade. Os custos de construção de usinas geotérmicas, perfuração do solo e extração da energia são, no mínimo, equivalentes aos da extração de outras formas de enegia. A Exxon, por exemplo, construiu uma usina ano passado ou retrasado que alcançava 11km adentro do planeta, enquanto uma boa parte das fontes geotermais podem ser alcançadas a 4km.

      Se a gente pegar a questão de um ponto de vista econômico você tem certa razão, embora isso envolva outros problemas como a concentração de produção em grandes agricultores, a fome etc. Mas, agora da perspectiva ambiental, os biocombustíveis não são nem de perto tão eficientes quanto as fontes geotermais, porque envolvem liberação de CO2 e produção de aldeídos.

      De qualquer forma, o que salta aos olhos é que, mesmo com todas as vantagens e desvantagens (as primeiras maiores que as segundas, na minha opinião), nem se procurou criar um debate em escala global sobre a extração de energia geotérmica, como com outras “novas” fontes de energia. Por quê?

  • Dear Mr. Didier, cada visita ao seu blog imprime uma nova surpresa. Não imaginava encontrar esse texto sob o título que escolheu. Zeitgeist und Energie… wahnsinnig! E sem desejar ingressar no mérito do debate quanto à viabilidade técnica ou orçamentária do uso dessa fonte natural de energia, acredito ser o lobby dos cartéis e monopólios, privados e estatais, os responsáveis por inviabilizar iniciativas dessa natureza. Não é possível que especialistas do setor, que atuam nos governos e na própria iniciativa privada, não levem projetos assim adiante, somente por ignorância. Todavia, a relevância de seu post é excelente. Você é um grande talento, Didier!
    Forte abraço.


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