Ok, esse vai ser longo, mas é importante…
Há pouco mais de um mês, os funcionários da Universidade de São Paulo decidiram entrar em greve. Agregaram às reivindicações o reajuste salarial, e o “fim da repressão”, mas o carro-chefe era mesmo a readmissão de Claudionor Brandão, demitido por justa causa no final de 2008. Este sujeito é o diretor do Sindicado dos Trabalhadores da USP, o SINTUSP, e militante do Partido da Causa Operária (PCO). Em ano de eleição, os nervos fervem nas assembleias, profundamente partidarizadas, dos funcionários.
Os estudantes e professores, a princípio hesitaram a aderir à greve, preferindo antes paralisações semanais, enquanto organizavam o burburinho causado pelos representantes dos partidos. Havia pautas próprias, como a revogação da UNIVESP – projeto lançado pelo Serra com vistas na eleição de 2010, para a criação de vagas “virtuais” na Universidade, destinadas aos professores da rede pública. Os funcionários ficaram praticamente isolados, pois os dois outros “membros” da Universidade entendiam que a greve carecia de um programa sólido e coletivo, que visasse não apenas fortalecer um partido mas melhorar as condições materiais da comunidade acadêmica. A greve estava perdendo fôlego a um ritmo constante. Até segunda-feira.

Nesse dia, a polícia militar entrou no campus da Cidade Universitária. A prerrogativa foi impedir um piquete – programado pelo SINTUSP – no prédio da Reitoria, onde os funcionários alegavam sofrer pressão de seus patrões para não aderir à paralisação. Os policiais estavam prostrados em frente à Reitoria desde às 3h da manhã, para executar uma ordem de reapropriação de posse requestada na semana anterior pela inteligentíssima reitora da USP, Suely Vilela.
Pronto. A greve ganhou uma forte prerrogativa que podia unificar os grupos de interesse divergentes em uma pauta comum. Os estudantes de História foram os primeiros a entrar em greve em assembleia extraordinária realizada na segunda, seguidos pelos outros cursos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Escola de Comunicação e Artes e da Faculdade de Educação, além dos professores. As assembleias gerais de alunos e professores também deliberaram por greve. Foi montado um calendário de atividades, com assembleias e outros piquetes. Mas faltava ainda um programa.
Dentre as atividades marcadas, estava o bloqueio do portão principal da USP, na terça-feira à tarde. Lá estavam os militares novamente, mas desta vez não era apenas a Força Tática, mas o “Choque”, pesadamente armado. As manifestações foram no início pacíficas, com os estudantes jogando flores nos policiais, apesar de uma série de provocações de ambos os lados. A tensão foi crescendo. Um grupo de estudantes encurralou alguns PMs contra um tapume, ao que estes responderam chamando reforços. Até que o ódio latente em ambos os lados explodiu.

Os militares jogaram bombas de “efeito moral”, atiraram balas de borracha, usaram spray de pimenta e desceram o cacetete contra os estudantes, ao que estes responderam com pedras e pedaços de madeira. Os primeiros passaram a perseguir os últimos nas ruas da Universidade e jogaram bombas dentro dos prédios das faculdades, como no da História e Geografia, onde uma porção de professores, alguns idosos, se juntaram a correria dos estudantes em pânico. Dois sindicalistas e um estudante foram presos e responderão a processo judicial.
Depois disso, a situação acalmou-se e foi montada uma barricada numa das avenidas principais, onde os estudantes de todas as faculdades se reuniram em assembleia. No dia seguinte, juntaram-se os professores e funcionários. A greve capenga de um grupo politicamente enfraquecido dentro da Universidade tornara-se, quase que do dia para a noite, um movimento generalizado a favor de uma completa reformulação da estrutura de poder da USP. Ainda não se constituiu uma articulação intensa e um programa uno, mas tudo indica que essa greve acabará tão cedo. Algumas das novas reivindicações são as seguintes: saída da PM da USP, renúncia de Suely Vilela a Reitoria e eleições diretas para Reitor.
Esse foi um breve relato expositivo para contrapor ao que etá sendo veiculado pela mídia. Agora, um pouco das minhas opiniões.
O que significa a presença da polícia militar no campus?
Algumas pessoas tentaram fazer essa discussão em termos jurídicos. Certamente, não se trata de uma ilegalidade, pois é a execução de uma ordem judicial.
Outros quiseram fazê-la no terreno da moralidade. Por um lado, há os que digam que os piquetes “impedem o direito de ir e vir” e que a polícia só está lá por causa disso. Pelo outro lado, há os que afirmem que são os policiais que estão impedindo esse direito.
Na minha opinião, o debate tem de ser traçado em outro campo. A presença da polícia militar abre um precedente muito perigoso: qualquer manifestação dos estudantes, professores ou funcionários é justificativa para se abrir um estado de exceção? Mas o problema vai mais fundo. Esse espisódio revela a profunda falta de diálogo que impera na ambiente acadêmico. A reitora que, no meu entender, deveria articular a política interna da Universidade com a política “externa”, ou seja, os secretários estaduais e o governador, está claramente se colocando contra os estudantes para implementar as políticas unilaterais do senhor José “Gollum” Serra.
Hoje de manhã, a reitoria divulgou uma nota lamentando os conflitos de ontem num lugar onde “o diálogo devem sempre ser privilegiado”. Ora, mas é ela mesma que estorva esse diálogo, que não o deixa acontecer. O que aconteceu terça-feira foi apenas uma demonstração – extremada – de um processo muito mais longo. Apesar de todos os problemas do projeto eleitoreiro da UNIVESP, a falta mais grave foi a não-existência de uma discussão com a comunidade universitária – que é a mais afetada por ele – previamente a aplicação do projeto. Foi o mesmo que aconteceu com os decretos de 2007 do governador, que privilegiavam as disciplinas “práticas” e que motivaram a invasão/ocupação da reitoria.
Mas defender apenas a renúncia da Suely Vilela é uma personificação de um problema muito mais amplo. Só para constar, o mais cotado para a suceder é o diretor da Faculade de Direito da USP, João Grandino Rodas, que, em 2007, permitiu a entrada da Tropa de Choque no prédio dessa faculdade, para expulsar dali alguns manifestantes.
O buraco é muito mais embaixo. Atualmente, a escolha de reitor para a Universidade de São Paulo é feita pelo governador do Estado, a partir de uma lista tríplice indicada pelo Conselho Universitário. Os setenta mil estudantes de graduação tem direito a um voto, assim como os mais de cinco mil professores e os pós-graduandos. Tem cabimento? Por isso, a meu ver, a comunidade acadêmica está correta em atacar as raízes desse sistema e defender uma restruturação total dos canais de poder dentro da USP. Agora, é preciso levar isso adiante, constituir um programa pautado e sólido, politizar o debate e levá-lo para fora do campus, porque ele está articulado com o contexto político mais amplo. E também para desfazer a imagem extremamente negativa dos manifestantes que a opinião pública insiste em incutir.